quarta-feira, 15 de junho de 2011

O avião colorido




Era uma vez um avião que gostava de várias cores e, por isso, começaram a chamá-lo Avião Colorido.

A certa altura, este avião decidiu ir sobrevoar o campo e encontrou uma peça de bijutaria, que era um anel de ouro.

- Encontrei uma peça de bijutaria! Que bonita! Eu sempre quis ter um anel destes… Como ninguém se queixou, decidiu ficar com a peça de ouro.

No dia seguinte, mostrou o anel aos amigos e um deles disse:

- Olha, compraste esse anel?

- Não. Encontrei-o, no meio do aeródromo.

Depressa, o menino disse que esse anel era dele, que o tinha deixado cair no dia anterior. Tinha andado à procura dele e não o tinha encontrado.

O avião sentiu -se ofendido, porque percebeu que o menino estava a suspeitar dele.

Antes de acusarmos alguém, devemos ter a certeza do que dizemos. Afinal, o anel não era de nenhum dos dois.

Marisa Mina

O COELHO COMILÃO




Um dia, estava a brincar no meu quarto, quando olhei pela janela e vi algo estranho.

- Hum! Não pode ser! Devo ter os óculos sujos. Oh! É mesmo um coelho a passear!

Tinha uma orelha maior do que a outra, a cara grande, os olhos pequenos e os bigodes grandes. Tinha uma t-shirt, umas mãos grandes, e numa delas tinha uma cenoura. Depois vestia umas calças e tinha uns sapatos! Nota-se que ele era muito comilão. Andava sempre à espera que alguém quisesse ir à beira dele, e depois fugia.

Estava sempre à espera que alguém lhe atirasse comida para o chão. Só estava bem a roer cenoura, pão, cascas de batata e couves! Toda a gente gostava muito de o ver a comer… Achavam piada à maneira de ele comer. Também gostava de jogar futebol.

A menina que estava doente, no hospital, gostava de apreciar este coelho. Um dia, quando já se sentia melhor, perguntou à mãe:

- Achas que poderia ter um coelho, quando fosse para casa?

- Claro! Vou tratar disso… Mas temos de lhe dar um nome.

- Já sei! Roni se for um coelho e Rita se for fêmea.

Uma semana depois, quando a menina teve alta e chegou a casa, viu um casal de coelhos e ficou muito feliz. Abraçou a mãe e agradeceu.

Embora não tivesse um coelho comilão, gostava de ter a tarefa de tratar dos herbívoros. Sentia-se mais responsável!

Sónia Dantas

O Homem que Tinha Uma Nuvem na Cabeça


Certo dia, António passeava pelo jardim. O dia estava lindo, mas aos poucos começou a ficar escuro, cada vez mais escuro e desatou a chover.

As nuvens eram mesmo muitas e de repente veio a trovoada. Houve um raio tão forte, tão forte que até fez cair algumas nuvens. Uma delas caiu mesmo em cima da cabeça do António. Coitado… ficou cheio de medo e a pensar como iria fazer para ir para casa com uma nuvem na cabeça… iria molhar tudo! O melhor seria comer e dormir na banheira.

António começou a ficar muito triste, pois a sua vida já não era como dantes. Não podia ver televisão, não podia andar de carro, não podia ir ao cinema e o pior de tudo, não podia brincar com os seus filhos, muito menos dar-lhes um beijo de boa noite.

Estava mesmo infeliz. Não podia viver mais assim! De repente teve uma grande ideia: Vou de férias para um país muito quente. Falou com a mulher e com os filhos e resolveu ir.

Foi para uma ilha tropical, mesmo no meio das Caraíbas. Lá estava muito calor, não chovia e por isso podia dormir na praia sem molhar tudo.

Ao fim de dois dias de lá estar, a nuvem começou a derreter e, como o calor era muito, desapareceu de vez.

O António ficou tão contente por estar livre da maldita nuvem que regressou imediatamente a casa para poder finalmente abraçar a mulher e os filhos!

Manuel Casimiro


terça-feira, 14 de junho de 2011

A CHEGADA DA PRIMAVERA







No dia 20 de Março, chegou a Primavera e com ela várias andorinhas. Mas destacam-se duas diferentes: a Matilde e o andorão João.

A primeira era a mais pequena de todas e era da cor da Primavera, enquanto que o andorão era todo preto e era o maior.

- Mãe, olha para o céu! Que pássaros são aqueles? – perguntou a Catarina.

- Filha, já são as andorinhas a anunciar a Primavera!

- E o que é a Primavera?

- Querida, trata-se de uma estação do ano. Isto é, um período de tempo, cerca de três meses, em que o clima fica diferente: mais quente; há mais luz durante o dia; as flores aparecem nas árvores e começam a desabrochar. Até as pessoas ficam mais bem dispostas.

- Mãe, a Primavera tem cores?

- Ups! Acho que sim! Observa os campos…

- São verdes e as árvores têm flores brancas e cor de rosa. Já sinto o seu perfume!

Enquanto mãe e filha andavam a passear pelo campo, uma andorinha pequena e atrevida passa muito perto da Catarina, num voo rasante. De seguida, vem o andorão e passa rente à mãe.

- Olha, filha, são andorinhas!

- Que bonitas! O que andam a fazer? Porque voam tão baixo?

- Acho que procuram um espaço para construir o seu ninho. Talvez procurem o beiral ou o alpendre da casa do avô.

- Ainda bem que a Primavera chegou, pois é muito bonita, tem várias cores, pássaros e animais que despertam do longo Inverno.

David Parente

domingo, 12 de junho de 2011

O AVIÃO QUE SE RI - CARLOS VAZ

Imagem Andreia Ribeiro


Como psicólogo, pediram-me para prestar alguns serviços de urgência no Aeroporto Francisco Sá Carneiro. Por isso, quando lá cheguei, compreendi que tinha muito trabalho, pois os aviões rapidamente começaram a entrar pela porta do gabinete (provisoriamente instalado numa enorme sala, para o efeito), queixando-se de incríveis maleitas de todos os tipos e feitios. Uns lamentavam-se das vertigens, outros de um medo incompreensível de voar. Havia ainda um avião que sofria do mesmo problema dos que tinham medo de levantar o pé do chão, só que ao revés, ou seja, nunca queria pousar um pé em terra, por esse motivo andava sempre às voltas durante toda a sessão. Foi por entre estes aviões singulares que conheci o avião mais macambúzio da pista, era tão beiçudo que ninguém se atrevia a embarcar nele, com o receio de alguma refrega. Perante tantas queixas, os mecânicos tentaram aparafusar-lhe o humor que faltava, mas tudo o que conseguiram foi uma tal resmunguice dos potentes motores que lhes ficaram a zumbir os tímpanos durante uma semana.

Quando o recebi, não me dirigiu a palavra uma única vez, de início parecia-me tímido, mas depressa compreendi que era simplesmente casmurrice. Decidi então fazê-lo rir um pouco… contei-lhe algumas anedotas sobre helicópteros (é sabido que todos os aviões gostam de ouvir boas anedotas sobre as maluquices dos helicópteros), mas nada, nem um único esboço de sorriso, depois falei-lhe da divertida história da avioneta pitosga que se enganava no aeroporto e aterrava sempre numa leira aqui perto… pois bem, foi exactamente enquanto lhe contava esta história que aconteceu o seguinte… vindo do nada, um avião caiu na outra ponta do meu sofá, atirando-me, imaginem bem, para o alto candeeiro da sala onde fiquei pendurado. Era o avião que não queria aterrar que, já sem combustível, resolvera, por fim, pousar no meu confortável sofá… esquecera-me totalmente dele, lá em cima, longe do meu olhar. Assim, perante aquele cenário tão cómico, o avião antipático soltou uma longa gargalhada, mostrando uma dentição completamente arruinada, muito fanado, com os dentes por lavar e até alguns podres, com um incrível mau-hálito quase impossível de descrever.

Foi assim, desta forma tão estranha, que cheguei à conclusão que o avião resmungão não precisava de um psicólogo, mas antes de um bom dentista. Seguiu o meu conselho, por isso é que hoje, com dentadura nova, é o avião que mais ri em toda a pista, ri das anedotas de helicópteros, das queixas da avioneta e do avião que nunca quer pôr o pé no chão. Ri, ri de tal forma que todos querem nele voar, porque na verdade todos sabem que o riso faz a qualquer um levantar voo.

Se forem um dia ao Aeroporto Internacional Francisco Sá Carneiro, podem perguntar pelo avião que se ri. Se o encontrarem contem-lhe a anedota do helicóptero que não parava de andar à roda, é a sua favorita

Carlos Vaz

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Os gatos do Casimiro


Era uma vez o Manuel Casimiro, um menino como tantos outros, por vezes, teimoso e distraído, outras vezes, atencioso e divertido.

O Manuel não gosta de acordar cedo e que a mãe lhe dê para jantar peixe cozido com batatas. Detesta dias de chuva e que lhe peçam para dançar.

Como todos os meninos da sua idade adora jogar à bola e andar de bicicleta pelas ruas da sua aldeia.

À noitinha, deita-se no sofá, bebe leite com chocolate e adormece a ver os seus programas favoritos na televisão. Mas o que deixa o Manuel Casimiro realmente feliz são os seus gatos, cinco lindos e pequenos gatos, que nasceram em sua casa. Estes gatos são muito especiais, fazem algo incrivelmente diferente. Sabem usar a sanita!

Sempre que têm vontade, usam a sanita e no final despejam o autoclismo.

Que bem-educados que os gatos do Manuel são!

Era uma vez o Manuel Casimiro, um menino diferente dos outros porque tem cinco gatos que sabem usar a sanita.

Manuel Casimiro

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Galinha Luísa


A galinha Luísa vivia no galinheiro da casa da D. Margarida. Era amarela, tinha a crista e as patas vermelhas. Punha poucos ovos, mas eram uns ovos especiais, pois eram de chocolate.

Nos dias de festa, como sejam: o Natal , a Páscoa, o Dia dos Namorados e os dias de Aniversário davam à galinha Luísa mais trabalho, pois tinha de pôr mais ovos. Depois a D. Margarida embrulhava-os com muito cuidado em papel bonito, punha uns laçarotes coloridos e oferecia-os às pessoas.

Os ovos eram tão saborosos que toda a gente os adorava e achava que a galinha Luísa era a galinha mais fantástica do mundo!

Manuel Casimiro

O AVIÃO QUE SE RI

Verão, Junho de 2009 no calendário romano. O tempo convida a partir e a sonhar. Terra, mar ou ar? A pergunta fica no ar, mas já vai descer à terra.

Entra agora a personagem principal. Chama-se NÃOSÔOÚNIKO, tem nove irmãos e pertence à família BAIPASSEAR. Olhos grandes, tronco comprido, vestido de roupas vistosas: vermelho, laranja e dourado; o cinzento completa o quadro e vinca o contraste. Não se trata de uma pessoa qualquer. Não senhor. Já vão ver porquê. Pergunta, então, amigo leitor. Porquê?

Porque tem umas asas enormes, uma cabine de pilotagem, uma imponente fuselagem, um leme, um trem de aterragem e até mesmo umas coisas estrangeiras como um aileron engraçado, uns flaps amigos (o que é que isso?) e um divertido joystick. Adivinharam. É um avião e parece dar sorte. E ocasiões havia em que se ria de contente.

O Joaquim é calvo, parece o senhor professor Sérgio Carvalho. Fala pouco e tem barriga, por isso coloca sempre a peça de roupa do tronco por fora das calças. Traz uns “largueirões” de uns calções amarelos às riscas vermelhas e verticais, uma t-shirt azul “vévé” com letras brancas na frente a dizer Good Bye. Por fora dos calções.

Por sua vez, a Celestina, é alta e forte e espirra simpatia por todo o lado. O cabelo é o

seu ai Jesus, loiro, muito loiro, comprido e encaracolado, aos cachos, como nas revistas das cabeleireiras. A cara triangular está afogada em maquilhagem. Seja como for, a Tina sente-se muito bem na sua pele, com uma auto-estima do tamanho do morro do pão-de-açucar. E gesticula muito, e fala muito com as mãos e tem uns trejeitos esquisitos nos olhos e na cara.

O espaço vai de Lisboa ao Rio de Janeiro, para residir em Copacabana. Há ainda o ar e o interior do avião, para responder à questão situa a acção no espaço.

O Quim e a Tina tinham tido uns arrufos e andavam magoados um com o outro. A Tina chamava-lhe “as arrufas”, o mesmo nome de uns doces populares em formato de patela daquelas de jogar as malhas ou o bicho. No fundo, bem no fundo da questão (e da razão, até talvez, sabe-se lá), iam tentar recuperar a chama acesa do amor e da paixão, pois claro e pois então. Queriam ser muito, muito amigos e cada um deles já imaginava como iria decorrer a estadia por terras de Santa Cruz.

As expectativas e as projecções cumprir-se-iam. Beijinhos e mais beijinhos e sucedâneos: as “jokinhas”, os “jinhos, os “abreijos” e por aí fora… Sempre, sempre de mãos dadas, enlaçados e “tanchados” um no outro, sorrisos inocentes nos lábios, misturados com aquela loucura pueril, emotiva e sentimental.

O NÃOSÔOÚNIKO aterrou no aeroporto da Portela, em Lisboa. Dentro dele sairia aquele casal renovado e feliz. Parece que a medicação foi mesmo a estadia de 15 pequenos dias no hotel TASSEBEM, uma das aliciantes propostas da BRACANCES, a sua agência de viagens com promoções exclusivas. A Tina, sempre com uma vontade de encontrar uma explicação para o que quer que seja, teimava em que o avião é que deu sorte. E, apontando para o NÃOSÔOÚNIKO, gritou feliz ao Quim: - Olha, Kikas, o avião está-se a rir!...

Andreia Ribeiro

domingo, 15 de maio de 2011

A MENINA DAS APÁRAS-LÁPIS



Era uma vez a menina das aparas. Chamava-se Marisa e vivia no campo. Tinha uma égua chamada Loira.

Um dia, a Loira andava no campo de futebol a comer erva e fugiu para o monte de Outeiro. Ao fim da tarde, a mãe da Marisa mandou-a ao campo da bola para trazer a Loira. Mas não a encontrou.

A menina foi de bicicleta dizer à mãe que não estava lá a égua.

A Marisa, já desesperada, pegou na sua bicicleta e , com a autorização da mãe , andou à procura do animal pela região.

Não estava lá a égua e a Marisa telefonou ao pai a dizer que a Loira não estava lá no campo de futebol. O pai recebeu um telefonema de um amigo que encontrara o equídeo. O animal estava com outros cavalos nos campos em Outeiro. Como ela estava bem e havia boas pastagens deixaram a Loira ficar dois meses.

Ao fim deste tempo, a Marisa foi com o pai e um colega buscar o animal numa carrinha.

Tudo acabou bem, mas a Loira anda nos campos presa.

Filipe Abel Gomes

terça-feira, 10 de maio de 2011

O Monstro dos Agrafos - Manuela Costa Ribeiro

Imagem de Raúl Gomes

Ao Raúl Gomes


Raúl sonhava todas as noites com o mesmo monstro. Tinha pesadelos. Sentia-o entrar pela janela do quarto e estender os braços na sua direcção. Eram uns braços longos e grossos. Pareciam quase os ramos de uma árvore secular. Ramos presos a um tronco imenso que ficava do lado de fora da janela. Os dedos longos e finos, brancos e frios. Pareciam feitos de neve, mas não se desfaziam embora fossem gelados. Ou era Raúl que gelava de medo e acordava em sobressaltos.

Por isso, todas as noites, quando chegava a hora de deitar, Raúl ia tentando prolongar a sua presença na sala. Enchia a mãe e o pai de perguntas. Tinha sempre mais um exercício para resolver. Eram infindáveis os trabalhos de casa. Nunca se dedicara tanto aos estudos. E nunca tinha sono. Olhava em todas as direcções. O seu olhar atento percorria todas as janelas. E finalmente, quando a mãe insistia:

- Raúl, vá lá, dormir! Anda lá, que te conto uma história. Amanhã tens aulas.

Lá vinha o mesmo pedido:

- Mãe, pai, posso dormir no vosso quarto? Por favor?!

Raúl só pensava em esconder-se nos lençóis da cama dos pais e sentir-se seguro entre os dois. Assim, protegido dos dedos de chumbo do mafarrico, que, sabia, viria assombrá-lo, uma vez mais. E insistia:

- Por favooooor!? Prometo que não dou pontapés! Durmo sem me mexer. Prometo!

- Vá lá, Raúl, então? Tu és um rapaz forte. Não tens medo de um monstrinho qualquer, não é? Vais ver que esta noite ele foi brincar com outro menino!, dizia o pai, tentando desvalorizar a situação, mas visivelmente preocupado.

Todas as noites, os pais deitavam-se com esperança de que estes episódios terminassem a qualquer momento. Todas as noites, porém, a mãe corria em socorro de Raúl, que acordava aos gritos, com os olhos sufocados de lágrimas.

Raúl sonhava repetidamente o mesmo sonho ruim, com o mesmo monstro dos agrafos. Parecia quase um fantasma, terrivelmente grande e desajeitado, vestido de branco, de um branco mais branco que o branco do sabão com que a mãe o lava antes de ir dormir. De um branco mais branco do que a branca espuma que lhe sobra dos lábios quando escova os dentes. Por cima do fato cor de algodão, uma capa do mesmo tom, debruada de agrafos de cinza. Não conseguiu nunca vê-lo por inteiro. Mas pelo tamanho dos dedos, das mãos, dos braços, só podia ser um mostrengo. O monstro dos agrafos. Era assim que lhe chamava. Só lhe vira os olhos uma única vez. De um vermelho-fogo. A espreitar por entre a brancura das vestes.

Sempre que Raúl acordava em altos berros, o gigante desaparecia, por trás de uma nuvem de fumo quase transparente e ninguém dava por nada. Aquele horrendo espantaraúl nunca foi visto por mais ninguém.

Os pais, cada vez mais atentos e preocupados, mesmo querendo acreditar que se tratava de uma fase passageira, começavam a desesperar em busca de explicações e chegaram mesmo a marcar consulta no psicólogo.

Por trás do musgo das árvores mais antigas do Monte, à medida que o tempo ia passando, Agrafítico, no seu esconderijo triste de plantas verdes de grande porte, sentia-se cada vez mais só. A família não havia maneira de conseguir explicar-lhe que há muito não havia qualquer contacto entre humanos e agrafos.

Há séculos que tinham deixado de conviver. Desde aquele dia em que um incêndio destruiu a floresta e obrigou os titãs a deixarem a sua toca escondida por entre a vegetação das montanhas. Há muitos e muitos anos. Tantos que já nenhum homem se lembrava. Tantos que, na comunidade dos Agrafos, nem o Avô Agrafútico, nem a avó Agrafética tinham qualquer memória. Tantos que só o mais velho, Agrafeolítico, se recordava. Por sorte e por mágica, não morreram todos naquele rasto de fogo e de humilhação.

Aí ficaram em suspenso os longos tempos de sã convivência e amizade.

Agrafítico é que não se deixava convencer. E mais: acreditava que só uma aproximação aos humanos seria a solução para que os Agrafos não se extinguissem. Não desaparecessem de vez da face da terra.

Agora que ele e o que restava do seu clã tinham conseguido regressar ao mesmo bosque de antes e tinham recuperado a sua gigantesca caverna, no Monte de Sta. Luzia, tinha de ter confiança. Estava farto ser de filho único e a única criança da aldeia. Zangava-se.

- Mamagráfica, assim nunca vou ter amigos com quem brincar! Só eles é que me restam! Ai! Brrrrrrr…

- Mas, Agrafítico, não vês que…

- É com os mais pequenos da aldeia, sim! Choramingava sem esconder uma grande raiva, tão grande como o seu grande corpo de adamastor.

Com passos apressados de birra, Agrafítico saiu em busca das magias e feitiços do mais velho, Agrafeolítico, que tudo sabe.

Ao chegar à clareira mais luminosa da floresta, onde ao meio-dia em ponto, todos os dias, a luz do sol se desfaz em salpicos de ideias livres, lá estava o mestre sentado em frente a uma grande fogueira sem labaredas e sem fumo. Com os olhos postos no seu caldeirão de poções vazias, mexia e remexia com uma colher de pau de cabo comprido, lenta, muito lenta, e sábia, muito sábia.

E sem que Agrafítico tivesse tido sequer tempo de soltar um ai, já o mais velho, Agrafiolítico, olhos-nos-olhos do gigante petiz, muito pausadamente, como quem soletra palavras sonâmbulas, aconselhou:

- A fé nun-ca per-cas! Ve-jo tu-do no qua-dro bran-co em luz des-fei-ta no es-pe-lho do ou-tro la-do da lu-a.

Depois parou. Concentrado. Levantou a cabeça e projectou os olhos na direcção do Lima. Percorreu, com a sua visão perspicaz e atenta, as águas perdidas no labirinto do estuário. E ali, no rio, fixou o brilho intenso do seu olhar de sabedoria. No exacto lugar onde seivas que escorriam de fontes e nascentes, recolhidas pelo leito doce do rio, alimentavam milhares de vidas minúsculas. No exacto lugar onde o sal das ondas salgadas fertilizava as terras. Ali, observou, com toda a atenção, o céu reflectido na transparência da foz. Como se, ali, estivesse todo o conhecimento. Como se, dali, viesse a resposta para todos os mistérios. E profetizou:

- No-vos a-gra-fos es-tão pa-ra vir! E a-mi-gos. Mui-tos a-mi-gos. A-le-gri-a. Fe-li-ci-da-de. É i-sso que re-ve-la o li-vro sa-gra-do dos a-gra-fos an-ti-gos!

Ah-ah-ah-ah-ah-ah!

Levantou a voz e içou os grandes mastros dos braços, deixando-os cair, de repente.

Crac-crac-crac. Craaaaaaaac. A montanha estremeceu.

Depois sentou-se, cansado. O mais velho, Agrafeolítico, era mesmo muito velho. As barbas brancas arrastavam pelo chão, tão compridas quanto o seu cabelo branco, mais branco do que o branco do gelo preso nos picos mais altos.

Agrafítico, mais certo do que a certeza de estar a fazer a coisa certa, perseguia a sua agrafítica aventura. Muito depois de o sol se pôr e com a cumplicidade da lua cheia que o escondia por entre os seus traços riscados de luz, visitava Raúl. Ficava horas a vê-lo dormir. A observá-lo. A estudar os seus gestos, as suas expressões. Sorria com os sonhos felizes de Raúl e, mesmo sem querer, era o seu pior pesadelo. Embora o que quisesse fosse, afinal, brincar com Raúl e com os seus companheiros, como uma criança da sua idade, apesar do seu grande tamanho. Mal tentava, contudo, entrar pela janela por onde só conseguia espreitar, mal ousava fazer um mimo a Raúl, já este gritava a bons pulmões: mãaaaaaaeeeeeee! e já a mãe corria em seu auxílio.

Agrafítico desaparecia, mais rápido do que uma bola de sabão desfiada no ar. E repetia em eco, de si para consigo, como quem precisa de repetir para acreditar, as palavras que tinha escutado de Agrafeolítico:

- A fé nun-ca per-cas! A fé nun-ca percas! A fé nun-ca per-cas!

Na manhã seguinte, de sol ou de chuva, à hora do recreio, era vê-lo, disfarçado nas nuvens, em delírio com as brincadeiras dos meninos. Imaginava-se a correr, a brincar às escondidas. Até a esconder-se atrás das árvores, no meio dos arbustos e nos campos de flores que rodeavam a escola. E, com a cabeça e com o corpo todo quase a cairem da nuvem onde estava abrigado, acompanhava os passos de Raúl e dos seus amigos a caminho do campo de futebol.

- Será que um dia poderei jogar à bola com eles? Ai como eu gostava! Suspirava Agrafítico nos seus pensamentos mais profundos e irrequietos.

De cada vez que Agrafítico inspirava o ar para deixar sair um suspiro, um repelão de vento empurrava a bola para o campo adversário e Raúl marcava golo. Braços no ar, gritava: Goooolooooooo! Feliz Raúl. Agrafítico sorridente apesar de triste e ansioso, sem nunca desistir de conquistar o coração de Raúl.

Em mais uma das noites longas, daquelas em que não tinha vontade de dormir e ia prolongando os trabalhos de casa pela noite dentro, Raúl ligou o “Magalhães”. Tinha deixado para tarde a pesquisa que o professor pedira para fazer, na internet, sobre o Monte de Santa. Luzia. Uma investigação para o novo projecto. Clicou no Google e escreveu “Monte de Santa Luzia”.

De repente, por entre as pesquisas distraídas, já mais atentas às janelas, leu um título que lhe despertou os sentidos: “monstro dos agrafos”.

O seu corpo tremeu da cabeça aos pés. Ficou arreliado de medo! Mudo! Não podia ser! Olhos arregalados, pregados no ecrã. Sem conseguir reagir. Respirou fundo. Esticou as mãos. Encostou as costas à parte de trás da cadeira. Estático. Apenas conseguiu articular:

- Mãe! Mãaaeeee! O monstro!

Foi mais forte a curiosidade e antes mesmo que a mãe respondesse, os seus dedos, mais rápidos que o seu raciocínio, deram início a uma dança frenética no teclado à procura de mais informações. Clica daqui, clica dali, clica dacolá! Abre uma janela e outra e ainda outra! E eis que lhe aparece a imagem do “Monstro dos Agrafos”. Tal e qual aquela que via nos seus pesadelos sobressaltados. Não podia ser! Boquiaberto, voltava a chamar:

- Mãe! Mãaaeeee! O moooooonstro!

- Filho! Filho! Raúl, tem calma! A mãe está aqui, então? Tentou acalmá-lo a mãe, já com os seus braços em volta do miúdo.

- É ele, mãe. É ele. É verdadeiro. Os monstros dos agrafos existem, mãe. Olha, diz aqui! No Monte de Santa Luzia!

No visor do computador, aparecia a imagem de um monstro branco, todo branco, com uns pêlos maiores, de cor cinzenta, a sobressair da brancura que lhe cobria a pele. Devia medir uns 3 metros de altura, os braços grossos e longos a tocarem o chão. O nariz largo e achatado tapava a boca, que nem parecia nada grande. Os olhos, vermelhos, muitos vivos. E embargados de ternura. Sim. Transmitia afabilidade aquele olhar encarnado. Até tinha um ar simpático aquele monstro dos agrafos. Raúl teve vontade de lhe tocar. De sentir como era. De falar com ele. De lhe perguntar porque lhe povoava os sonhos. Raúl estava surpreendido mas feliz. Afinal o pesadelo não mais seria um pesadelo. A partir daquela noite poderia dormir sem medo. E, no dia seguinte, contaria tudo aos colegas. Mal podia esperar. Descansado de tanta canseira, adormeceu de cansaço.

Já o sono ia profundo e eis que o misterioso espantaraúl que antes lhe sufocava a tranquilidade das noites, chegava agora para a embalar. Desta vez, Raúl deixou-se tocar pelos dedos delgados e frescos como o orvalho da manhã, e sorriu. Virou-se para o outro lado segurando na sua minúscula mão o único dedo de Agrafítico que conseguia agarrar: o mindinho. O pequeno gigante não cabia em si de alegria. Conseguiu espreitar pela janela, aberta de par em par, com os seus olhos de papoilas enormes em dia de primavera, e viu o sorriso estampado no rosto de Raúl, a dormir, sereno e profundo e sem sustos, sem choros, sem gritos. Ali se deixou ficar, vigilante, com os seus brancos dedos, mais brancos que o branco do algodão doce das Festas da Sra. da Agonia, enlaçados nos minúsculos e frágeis dedos de Raúl. E ali, do lado de fora da janela do quarto, acabou por adormecer.

Quando Agrafítico acordou, por fim, já o sol ia alto no céu sem nuvens e completamente a descoberto. Raúl, a mãe, o pai, e até os vizinhos, pasmados, observavam-no com uma daquelas curiosidades de quem vê coisas muito estranhas, coisas de espantar.

Já todos sabiam da antiga convivência tu-cá tu-lá entre humanos e agrafos, em tempos que já lá vão. Todos estavam admirados porque há muito que os monstros tinham sido dados como extintos. Há muito que ninguém falava deles. E todos se mostravam agora animados por saberem que estavam de volta.

Agrafítico e Raúl tornaram-se grandes amigos, os melhores amigos. Agrafítico brinca com as crianças da aldeia e faz parte da equipa de futebol da escola. É guarda-redes e nunca mais a equipa sofreu nenhum golo. A escola Pintor José de Brito está à frente do campeonato inter-escolar. Tem vencido todos os torneios.

Raúl é visita frequente da gruta dos agrafos e já conheceu toda a família. Estava lá no dia em que a mãe Agrafática e o pai Agrafótico anunciaram, diante de todo o grupo, com muita pompa e mais circunstância, que Agrafítico iria ter um irmão.

Na clareira mais luminosa da floresta, onde ao meio-dia em ponto, todos os dias, a luz do sol se desfaz em salpicos de ideias livres, o mais velho, Agrafeolítico, que tudo sabe, guiou o seu olhar de velas soltas pelas águas limpas da enseada. Com os olhos parados no exacto lugar onde o sal das ondas desmaia na espuma de algas e sargaços, com uma voz solene e arrastada, sílaba a sílaba, sentenciou:

- A-gra-fa-úl se-rá o no-me des-ta cri-na-ça! Em ho-me-na-gem à re-no-va-da es-pe-ran-ça que nos trou-xe o no-vo a-mi-go Raúl.

Agrafítico e Raúl ficaram alegres, nas nuvens. É lá que se encontram todos os finais de tarde, quando o sol está quase, quase a partir e a lua quase, quase a dizer boa noite. Ali se sentam, felizes e divertidos, com o olhar pousado na linha do horizonte, onde sol e mar se cruzam.

Despedem-se do astro-rei:

- Adeus Sol, até amanhã! Diz bom dia aos meninos do outro lado da terra.

Saúdam as estrelas do céu reluzente e dão as boas vindas à lua mais nova ou mais cheia, mais crescente ou mais minguante, mas sempre bem-disposta.

- Olá Lua, trazes bons sonhos?

Póvoa de Varzim, Abril de 2011

Manuela Costa Ribeiro

terça-feira, 3 de maio de 2011

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Capa do livro "Era uma vez..."

Exposição do livro "Era uma vez"